Neste ponto existe concordância em todas as escolas psicológicas ou psicanalíticas.
A adolescência tem seu início mais ou menos aos 11 anos e vai até aproximadamente 18 anos, quando então a classificação seria de adulto jovem.
Embora algumas escolas afirmem que após esta etapa ainda restem traços do comportamento anterior e que estes traços podem persistir até a passagem dos 30, tecnicamente ela termina, mesmo aos 18.
A psicanálise, apenas a divide em duas fases. Puberdade, de 11 aos 14 anos e após a adolescência em si.
É real, o comentário, que as escolas psicológicas ou psicanalíticas, nunca deram muita importância a esta fase ?
Sim, até bem pouco tempo, a adolescência era encarada como " um mal que o tempo cura " e de um modo geral o jovem era um elemento esquecido.
Só era percebido quando dava problemas, ser jovem era como um estado de " não ser " ou como disse Caetano " sem lenço, sem documentos, sem nada nos bolsos ou nas mãos ".
Assim era o jovem, sofrendo suas crises e fazendo suas contestações, sempre de uma maneira pouco percebida por nós, os adultos.
Então vieram as guerras, os movimentos hippies, as músicas, as contestações em massa e como numa conscientização geral, descobrimos a juventude.
Isto por que agora não era um " jovem problema " e sim um " conflito de gerações " e então as atenções acabaram se voltando ao " problema do jovem ".
Era como se eles tentassem gritar " nós existimos " assim como os movimentos feministas pretendem atualmente.
Digo isto por que a mulher e o jovem ocuparam o mesmo espaço social por muito tempo.
Como é a tal crise da puberdade ?
A puberdade é marcada pelo aparecimento dos caracteres secundários, ou seja, , dos pelos pubianos, aparecimento dos seios, da ejaculação , da menstruação e pelas mudanças hormonais sem contar com o crescimento mais acentuado desta etapa.
Junto com isto ocorrem as mudanças psicológicas e a puberdade é como um " luto " pela morte da infância.
Um conflito entre ser criança ou jovem.
Se a infância não for bem acompanhada, é evidente que este conflito torna-se mais acentuado e então podemos percebê-lo nitidamente nas tomadas de posição do jovem.
Em certas horas, ele age como um adulto, para em seguida tomar atitudes bem infantis.
É um período de altos e baixos. Um período ambivalente onde são revividas psicologicamente parcelas das etapas da infância.
As fantasias infantis vem novamente a tona e principalmente aquelas referentes a sexualidade agora podem ser, de certo modo, concretizadas.
Estas fantasias, são as tais, dos desejos da menina pelo pai ?
Sim, são aquelas da etapa do Complexo de Electra que já vimos em outras matérias.
O desejo da filha possuir o pai ( monopolizar seu afeto ) agora pode ser concretizado.
Mas como isto é proibido pelo seu censor, o Superego, este desejo então é recalcado e seus reflexos são percebidos pelo desejo de ser como mamãe, uma mulher e assim possuir um outro homem " substitutivo de papai " que pelas circunstâncias da educação e por fatores intra-psíquicos também é proíbido, o que leva a menina ao decantado " amor platônico ".
Então este amor platônico nunca é concretizado, para que, psicológicamente aquelas fantasias infantis não sejam realizadas ?
A concretização do dito amor platônico, colocaria a menina em um conflito muito maior que o anterior, portanto, este é um amor realizado a distância.
E em uma grande parte das vezes não é nem mesmo necessário que ele " o objeto amado " saiba que está sendo amado.
Qual é a importância deste amor para o desenvolvimento da menina ?
Ele é muito importante por que é o marco inicial da aceitação de um novo papel ou uma nova posição, além de participar da solução do complexo de Electra.
É como a determinante básica da aceitação da adolescência ou do término da infância. É a solução do luto pela perda ( morte ) desta nossa parte (a infância).
Todos nós passamos por esta fase de amor platônico, ou isto não é geral ?
Sim, todos nós passamos por ela. Isto independe de sexo ou do processo educacional.
É uma etapa comum a todos, é uma parte de nosso desenvolvimento.
Em alguns o amor platônico é mais claro, em outros ele é bloqueado pelos processos censores, mas de um modo geral todos nos lembramos do nosso primeiro grande amor, nosso ídolo, nossa musa.
Ele é nossa primeira tentativa de extrapolação de nossos sentimentos e instintos sexuais, agora já dirigidos a um objeto consciente.
Como devemos nos comportar em relação ao interesse do(a) púbere,
em determinado garoto(a), um namoradinho(a) ?
Para alguns pais esta etapa é o caos. É o fim do mundo.
Isto ocorre por que eles depositam um quantum de suas próprias fantasias sobre os filhos.
De um lado eles desejariam ver suas fantasias realizadas através dos filhos, isto é inconsciente, e de outro eles temem a concretização das mesmas( suas próprias fantasias).
Como exemplo temos aquelas mães que cercam a garota de tal forma que elas entram em um período de crise existencial.
Podemos observar pelo fato, de nesta época a jovem ou o jovem de um modo geral, entram nas dificuldades escolares.
São as séries que tem o maior índice de repetência, que é gerado por estes conflitos.
Esta preocupação é inútil, primeiro por que nesta época o garoto está mais preocupado em demonstrar sua força, seu poder, etc. e todas suas manifestações afetivas, em relação a figura feminina, são contidas de um alto grau de agressividade, o que mantém as garotas afastadas.
Isto ocorre por que a garota pretende um parceiro seguro, forte e ao mesmo tempo carinhoso e terno.
Qualidades que são encontradas em garotos de uma faixa etária superior a dela e com interêsse em garotas mais velhas.
Os namoros desta idade não passam de olhares e trocas de bilhetinhos ou então as fofocas das turmas.
Qualquer problema que possa surgir os pais estarão aptos a resolvê-los, desde que eles sejam " amigos " de seus filhos, deixando um pouco de lado o " papel de pais " e todos os poderes adquiridos com ele.
Nesta época o jovem precisa mais de um pai amigo, que de um pai orientador .
Como é ser mais amigo que pai ?
É descer do pedestal e rasgar as fantasias adquiridas com aquelas baboseiras no estilo " ser mãe é padecer no paraíso " de "papai sabe tudo " e outras tantas.
Ser pai, é ser humano, é padecer aqui mesmo, é sair do tal paraíso e estar presente nas necessidades dos filhos e nas próprias, é claro!
É ser forte no momento certo e ser fraco também, é ser homem ou mulher em todos os sentidos para poder dar um modelo real para os filhos.
É estar presente no aqui e agora. É como disse o Chico: " é ser uma realidade menos morta " " é criar seu próprio pecado e seu próprio veneno."
É a cura e evitação de outros males.
Mas, este descer do pedestal não faria acabar a autoridade paterna ?
É o que muitos imaginam.
Pensam que isto romperia os laços de família.
Mas, isto não ocorre por que cria maior proximidade entre pais e filhos e diminui aquela ansiedade de contestar , muito comum do jovem.
Reduz também a necessidade de " esconder fatos ", pois facilita o diálogo entre eles.
E a masturbação, como deve ser vista ?
Deve ser encarada como um fato normal.
Ela é a expressão da sexualidade do jovem.
Quando um jovem se masturba, nada mais está fazendo do que assumindo a si próprio, assumindo sua sexualidade.
Esta masturbação é remanescente das manifestações infantis, daquele auto-erotismo, daquela bissexualidade.
Ela é o primeiro passo para a vida sexual normal, portanto não deve ser encarada com patologia.
A masturbação ocorre em quantidade paralela a ansiedade existencial.
O jovem menos ansioso, usa menos a masturbação por que precisa menos desta válvula de escape para suas tensões.
Qual é a forma mais comum de masturbação na jovem ?
Na jovem é a estimulação clitoriana. O clitóris ainda é a fonte de prazer sexual ou a válvula de escape da ansiedade.
São raros casos de introdução de objetos na vagina para masturbar-se. Isto por que ainda é forte o conceito de virgindade e a introdução poderia ocorrer a perda dela.
No jovem é a manipulação do pênis até a ejaculacão.
José Roberto Paiva.
Trecho da apostila sobre Educação Sexual publicada em 1984.
Publicação revisada em 99